
Juiz que atropelou e matou jovem ciclista em Araçatuba segue em liberdade
O juiz aposentado, que atropelou e matou uma ciclista ao tentar dirigir o carro com uma mulher nua no colo, em Araçatuba (SP), na manhã de quinta-feira (24), responde inicialmente por homicídio culposo na direção do veículo automotor. Essa nova qualificadora foi estabelecida pela Polícia Civil no sábado (26), após a confirmação da morte da ciclista.
Até sexta-feira (25), ele respondia inicialmente por lesão corporal na direção do veículo automotor. O inquérito policial segue em andamento na Delegacia Seccional de Araçatuba.
📲 Participe do canal do g1 Rio Preto e Araçatuba no WhatsApp
Para entender melhor sobre os tipos de crimes e possíveis agravantes, o g1 conversou com o advogado criminal Nugri Bernardo de Campos, especialista em direitos humanos e pós-graduado em ciências criminais. Ele esclareceu o porquê da qualificação para lesão corporal.
“A questão da lesão corporal para o registro da ocorrência, às vezes acontece quando não se sabe o estado da vítima e o resultado que se pode alcançar através da conduta criminosa que atingiu a vítima, podendo ser complementada posteriormente” explica.
Para a qualificação de homicídio, que é a situação atual do juiz, existem alguns fatores que podem mudar esse entendimento sobre o caso.
“Quando o condutor assume o risco por alguns fatores específicos, como excesso de velocidade ou outras condutas perigosas, como, por exemplo, essa questão da nudez em que estavam o motorista e a passageira, que poderia ser entendida como dolo eventual, ou seja, uma das modalidades do dolo prevista no Código Penal”, explica.
O advogado também pontua a diferença entre o homicídio culposo e o doloso. Culposo é quando não há intenção de matar. Doloso é quando o autor assume o risco de causar a morte de alguém. À reportagem, Nugri explicou que alguns critérios devem ser observados pelo delegado responsável pelas investigações e posteriormente pelo promotor e pelo juiz que vai julgar o crime.
“Tudo depende da imparcialidade ou não do delegado que indiciará, do promotor que acusará e do juiz que pronunciará ou não para desclassificar a conduta como culposa e não dolosa”, revela.
Atropelamento
O atropelamento ocorreu na manhã de quinta-feira, depois que o juiz aposentado saiu de uma boate com uma mulher e parou a caminhonete nas proximidades de um supermercado, na rotatória da avenida Waldemar Alves, em Araçatuba.
Segundo o registro policial, a passageira tentou se sentar no colo do juiz aposentado, quando o veículo foi acelerado de forma abrupta na contramão e atingiu a ciclista.
De acordo com o boletim de ocorrência, Fernando apresentava fala desconexa, falta de coordenação motora e forte odor etílico quando foi abordado pelos policiais.
O juiz aposentado foi levado para a Delegacia Seccional da cidade, onde foi autuado por lesão corporal culposa na direção de veículo automotor. Devido à gravidade do crime, a prisão em flagrante foi convertida em preventiva e a fiança foi arbitrada.
Thais Bonatti estava indo para o trabalho de bicicleta, quando foi atingida pelo carro na contramão.
Reprodução
Qualificação do crime
Na madrugada de sábado, a ciclista Thais Bonatti, de 30 anos, morreu na Santa Casa de Araçatuba devido à gravidade dos ferimentos causados pelo acidente. O caso, que antes era qualificado como lesão corporal culposa, passou para homicídio culposo na direção de veículo automotor, quando não há intenção de matar.
LEIA TAMBÉM:
Juiz aposentado que atropelou e matou ciclista recebeu mais de R$ 700 mil de salário nos primeiros seis meses de 2025
‘Eu atrás de um caixão para a minha irmã e ele dormindo’: irmão lamenta morte de ciclista atropelada por juiz aposentado que dirigia embriagado
Histórico do juiz
Fernando é advogado inscrito na OAB de São Paulo. É juiz de direito aposentado e, atualmente, está habilitado para atuar como advogado em todo o território nacional, com exceção da comarca de Araçatuba, onde atuava na 1ª Vara Cível.
Fernando Augusto Fontes Rodrigues Junior foi preso em Araçatuba (SP)
Reprodução / Arquivo Pessoal
700 mil de salário
O juiz teve uma média salarial de R$ 129 mil durante o primeiro semestre de 2025. O valor bruto somado dos seis primeiros meses chega a R$ 914 mil e, com os descontos mensais, o valor líquido é de R$ 779 mil. Na sexta-feira (25), Fernando Augusto Fontes Rodrigues pagou uma fiança de R$ 40 mil e foi solto.
O que diz a defesa
Em nota enviada à TV TEM, no sábado (26), pela defesa, o juiz Fernando Rodrigues Junior lamenta a morte da ciclista e informa que oferece apoio as familiares. Leia abaixo a íntegra da manifestação:
“A família de Dr. Fernando manifesta profundo pesar e solidariedade à família da vítima, reafirmando o respeito absoluto à dor e ao luto. Desde o ocorrido, está oferecendo apoio à família da vítima. Em razão do sigilo decretado no inquérito, ele está legalmente impedido de conceder entrevistas ou se manifestar publicamente. A defesa reforça que esse silêncio é um dever jurídico, mas também um gesto de respeito.”
Fernando Augusto Fontes Rodrigues Junior, de 61 anos saindo da delegacia em Araçatuba (SP)
Reprodução/TV TEM
* Colaborou sob supervisão de Henrique Souza
Veja mais notícias da região em g1 Rio Preto e Araçatuba.
VÍDEOS: confira as reportagens da TV TEM